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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

RESUMO DO LIVRO "A DEMANDA DO SANTO GRAAL"



A introdução da matéria da Bretanha em Portugal deu-se já na
última fase das sucessivas versões do ciclo, quando os feitos 
heroicos de cavalaria e os enredos de amor foram adaptados a 
uma intenção religiosa.


Por isso. A Demanda representa, relativamente à moral cortês 
que inspira as cantigas de amor, uma completa inversão de valores. 
Enquanto na lírica cortês, como em todo romance cortês anterior 
a essa fase, o amor é exaltado como o caminho para a felicidade e 
para a perfeição moral, em A Demanda do Santo Graal todo amor 
é considerado pecaminoso e a virgindade é recomendada como o 
estado mais perfeito. Lancelote do Lago, o antigo herói, modelo 
de cavaleiro e amante, vê-se eclipsado por seu filho, que é também 
sua réplica, Galaaz, que jamais conheceu mulher.

A versão mais conhecida em Portugal narra inicialmente a proveniência 
do Santo Graal, cálice ou vaso que conti­nha o sangue de Cristo, 
recolhido por José de Arimatéia e por ele transportado, passando por 
múltiplas vicissi-tudes, desde Jerusalém até o castelo de Corberic, na 
In­glaterra, onde ficou guardado pelo “Rei Pescador“, mis­teriosamente 
doente. O mago Merlim profetiza que novos tempos seriam inaugurados 
com a chegada de um cavalei­ro predestinado, capaz de romper o 
encantamento do Santo Graal.

No dia de Pentecostes (dia do Espírito Santo), 150 ca­valeiros reunidos 
em Camaalot, na corte do Rei Artur, em torno da távola redonda, 
esperavam ansiosamente a chegada do cavaleiro misterioso que iria ocupar 
a cadeira perigosa. Surge então Galaaz, filho de Lancelote. O Rei Artur 
conduz todos até a praia, onde Galaaz dá prova de sua destinação como 
cavaleiro eleito: consegue retirar a espada encravada numa pedra 
flutuante, façanha que nenhum cavaleiro conseguira realizar. À noite, 
reunidos em torno da távola redonda para a ceia, os cavaleiros são 
surpreendidos pela aparição do misterioso vaso, o Santo Graal, que 
a todos ilumina com a Graça do Espírito Santo e os nutre com a luz de 
um místico alimento. Sobressaltados e extasiados com a experiência 
mística, os cavaleiros do Rei Artur juram não descansar enquanto não 
encontrassem o cálice sagrado que os iluminaria com a graça celestial.


Começa então a demanda do Santo Graal, composta de inúmeras 
aventuras heroicas e sentimentais, que servem para pôr à prova a virtude 
e a coragem dos cavaleiros do Rei Artur. Somente Perceval, Boors e 
Galaaz resistem e, destes, coube a Galaaz o prêmio de, como o cavaleiro 
es­colhido, gozar a graça da vida “espiritual” antes de se des­pojar da 
carcaça terrena. (O nome do “escolhido“, único a gozar a comunhão 
sobrenatural, deriva de Galaad, palavra de ascendência bíblica, que 
significa “o puro dos puros”, o próprio Messias, símbolo de um novo 
Cristo, ou um Cristo sempre vivo, em peregrinação mística pelo mundo.)

Após a “consagração” de Galaaz, a novela continua com a narrativa do 
caso amoroso adulterino de Lancelote, pai de Galaaz, e da rainha Ginebra, 
esposa do Rei Artur. Segue-se o colapso do reino de Logres e a morte de 
Artur, no meio de sangue, traições e lágrimas.

A cristianização da lenda pagã do Santo Graal trans­formou A Demanda 
em uma novela mística, um retrato vi­vo da Idade Média teocêntrica, em 
busca de um ideal utó­pico de vida, voltado para a salvação sobrenatural, 
o que não impede a existência do lirismo, do erotismo e do fan­tástico em 
cenas em que o real e o imaginário se cruzam de modo surpreendente. 
É o que ocorre nos capítulos 106-116, quando a filha do Rei Brutus, 
enfebrecida de paixão, penetra nos aposentos de Galaaz e se oferece ao
 “cavaleiro escolhido”, submetendo a uma dura prova sua inquebrantável castidade.

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